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O Montepio e a Cidade

Relação entre o Montepio e a cidade de Lisboa

Intersecção entre Montepio e a cidade de Lisboa

O Montepio nasceu em Lisboa e a sua história confunde-se com a desta cidade. Instalado na baixa pombalina, fixou a sua sede na Rua Áurea, em 1865. Deste modo, ao localizar-se no centro administrativo e comercial da capital, o Montepio reforçava a sua imagem de prestígio e confiança.

Lisboa vivia então um processo de significativa transformação, marcado pelo crescimento populacional, pela industrialização, especialmente em Alcântara e Xabregas, pela expansão comercial da Baixa pombalina — onde ministérios, tribunais e cafés estruturavam a vida social —, pela modernização dos transportes e serviços e pelo surgimento de novos bairros residenciais. 

Durante a segunda metade do século XIX, a população de Lisboa cresceu significativamente. Em 1864, o recenseamento indicava 163 763 habitantes, aumentando para 301 206 em 1890 e para 435 359 em 1911. Este crescimento foi impulsionado pela afluência de trabalhadores atraídos pela industrialização e pela criação de empregos no setor terciário, que assumiu grande importância no início do século XX. Apesar de o setor industrial representar 17,3% da população ativa em 1890, o crescimento do comércio e dos serviços no centro de Lisboa, especialmente na Baixa e no Chiado, fez com que o setor terciário se destacasse na economia da cidade.

O crescimento urbano suscitou novas tensões, com várias áreas, principalmente nos bairros operários, caracterizadas por condições habitacionais deficientes e falta de infraestruturas sanitárias. A Grande Guerra, a gripe pneumónica de 1918 e a falta de habitação social agravaram a situação das classes populares, incentivando uma nova consciência para a necessidade de melhorias urbanas e sociais. Nos anos seguintes, o setor industrial foi gradualmente substituído pelo terciário, com Lisboa consolidando-se como o centro administrativo e de serviços de Portugal, enquanto a classe média urbana se expandia e transformava o cenário urbano com edifícios residenciais e comerciais. O Montepio, ainda que identificado sobretudo com a classe média urbana, não deixou de captar associados e depositantes vindos desses meios mais populares, procurando na instituição um amparo que o Estado não lhes garantia.

Nos anos 1920, Lisboa já contava com cerca de 529 524 habitantes e uma rede urbana alargada. A abertura de avenidas modernas provocava a reorganização urbana, ligando o centro às zonas periféricas e criando novos espaços para a expansão habitacional e comercial. Os bairros operários proliferavam nas zonas periféricas, embora muitas dessas áreas continuassem a carecer de infraestruturas adequadas. A aproximação da II Guerra Mundial trouxe novos desafios para a cidade. Embora Portugal se mantivesse neutro, Lisboa foi palco de importantes atividades diplomáticas e de espionagem, dado o seu papel estratégico como ponto de entrada e saída para a Europa. No final da década de 1930, Lisboa era uma cidade de contrastes: um centro moderno e cosmopolita, mas marcado por acentuadas desigualdades sociais e urbanas. As políticas de renovação e desenvolvimento do Estado Novo transformaram-na numa capital monumental e mais equipada, mas as condições dos bairros periféricos evidenciavam as disparidades entre o centro e a periferia.

A vida associativa do Montepio refletiu a transformação da cidade e esse quotidiano urbano, fervilhante e acentuadamente assimétrico. O recrutamento de associados acompanhava a diversificação social da Lisboa liberal, alargando-se a funcionários públicos, militares, pequenos comerciantes e profissionais liberais. Ao mesmo tempo, a Caixa Económica atraía pequenos aforradores, como criadas de servir, lojistas e assalariados, sinal de que o Montepio, ainda que nascido da classe média, se tornava também um espaço de proteção para estratos sociais mais populares.

A ligação à cidade expressou-se de formas diversificadas nas respostas sociais dadas pelo Montepio. No início do século XX, num tempo em que Lisboa enfrentava graves carências habitacionais, a instituição promoveu a construção de moradias na Estrada de Benfica e adquiriu prédios urbanos para arrendamento, acompanhando a expansão da capital para as Avenidas Novas e novos bairros de classe média.

A história do Montepio em Lisboa não é apenas a da sua sede ou dos seus serviços: é a de uma instituição que se desenvolveu em sintonia com o crescimento da capital, acompanhando o quotidiano da sua população, respondendo às necessidades sociais de uma cidade em transformação e tornando-se parte integrante da sua paisagem urbana e cultural.

Praça Dom Pedro IV, o Rossio, na década de 40 do século XX. © Arquivo Municipal de Lisboa | Praça Dom Pedro IV, Joshua Benoliel, JBN003659.
Rouparia Central de J. Nunes Godinho, na primeira década do século XX, na Rua Áurea.
© Arquivo Municipal de Lisboa | Rouparia Central de J. Nunes Godinho, Joshua Benoliel, JBN000221.
Estabelecimento comercial A Confiança de Lisboa, na primeira década do século XX, na Rua dos Fanqueiros.
© Arquivo Municipal de Lisboa | Estabelecimento comercial A Confiança de Lisboa, Alberto Carlos Lima, LIM001073
Aspeto do interior da pastelaria Aloma em Campo de Ourique, em 1943.
ANTT, PT/TT/EPJS/SF/001-001/0089/2389R.
Sapataria Coimbra na Rua do Carmo, na primeira década do século XX.
© Arquivo Municipal de Lisboa | Sapataria Coimbra, Joshua Benoliel, JBN/000227.
Aspeto da vida comercial no cruzamento da Rua dos Fanqueiros com a Rua da Betesga. A Rua dos Fanqueiros destacava-se como a principal artéria de consumo da burguesia lisboeta, em contraste com o Chiado e a Rua Áurea, espaços privilegiados pela alta sociedade da época.
© Arquivo Municipal de Lisboa | Rua dos Fanqueiros e Rua da Betesga, Ferreira da Cunha, FEC000487.
Fábrica de cerâmica Viúva Lamego, no Largo do Intendente, na década de 40.
© Arquivo Municipal de Lisboa | Fábrica de cerâmica Viúva Lamego, Eduardo Portugal, EDP000961.

As sedes do Montepio Geral

A história do Montepio está intimamente ligada à cidade de Lisboa, seu berço social e institucional. A expansão e afirmação da associação acompanharam de perto o crescimento urbano e a evolução política e social da capital. 

Os primeiros encontros e assembleias realizaram-se em escolas ou em residências de associados, passando por vários endereços: Rua do Crucifixo, n.º 38 (atual n.º 125); Rua da Betesga, n.º 4; Rua da Oliveira ao Carmo, n.º 65.

Por fim, em 1864, o Montepio adquiriu um prédio na Rua Áurea (atual nº 6) para aí instalar a sua sede, o que ocorreu em 1865, permanecendo desde então no mesmo local. A localização na Baixa Lisboeta, junto ao Terreiro do Paço, era estratégica, pela proximidade com os funcionários públicos, comerciantes e profissionais liberais que constituíam a base associativa da instituição.

Em 1897, a Assembleia Geral autorizou a compra de um edifício contíguo, a fim de acomodar o crescimento das atividades da instituição.

Em 1926, o edifício recebeu melhorias significativas, como instalação de rede elétrica, ventilação e construção de cofres e uma casa-forte em pisos subterrâneos.

Fachada do edifício-sede do Montepio Geral, na Rua Áurea, Lisboa.
Arquivo do Montepio Geral.
Sede do Montepio Geral, no segundo piso do n.º 38 da Rua do Crucifixo.
Arquivo do Montepio Geral.
Fachada do Edifício Grandella na Rua Áurea, Lisboa.
Arquivo do Montepio Geral.
Edifício pertencente à Venerável Ordem da Terceira, onde o Montepio esteve instalado, no 1.º andar, desde julho de 1843 a 1844.
Foi neste prédio, sito na Rua da Oliveira (ao Carmo), n.º 65, que se inaugurou a Caixa Económica de Lisboa.
Arquivo do Montepio Geral
Fachada do Edifício Grandella na Rua do Carmo, Lisboa.
Arquivo do Montepio Geral.
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