A 19 de março de 1840, realizou-se na Academia de Belas Artes, em Lisboa, uma reunião promovida por Francisco Manuel Álvares Botelho (1803–1875), funcionário da Junta do Crédito Público e antigo professor primário do Colégio dos Nobres, com o intuito de fundar uma instituição de socorro mútuo destinada aos funcionários do Estado. Nessa ocasião foi apresentado o Plano do Montepio Literário, na presença de 15 representantes dos 270 signatários do projeto de fundação, que daria lugar à criação do Montepio dos Empregados Públicos. O contexto nacional era de acentuada instabilidade política, forte pressão fiscal, salários irregulares e frequentes atrasos nos pagamentos, colocando os funcionários públicos, especialmente os que ocupavam a faixa mais baixa, numa situação de permanente fragilidade económica.
A criação do Montepio dos Empregados Públicos foi formalizada com a aprovação dos estatutos, em 25 de agosto de 1840, consagrando-o como uma instituição de assistência mútua, visando responder às crescentes preocupações de segurança financeira dos trabalhadores públicos e de setores da classe média lisboeta.
Em 1844 a instituição passou a designar-se Montepio Geral e criou a sua Caixa Económica, que rapidamente se tornou essencial para a capitalização e o alargamento dos serviços, incluindo empréstimos sobre penhores. Em 1864 comprou um edifício na Rua Áurea para estabelecer a sua sede. No ano seguinte, instalou-se na nova sede, no coração de Lisboa, onde ainda hoje permanece.
A instituição afirmou-se como uma associação generalista, aberta a diferentes setores profissionais, o que lhe conferiu maior solidez em períodos de crise. O símbolo escolhido, o pelicano em piedade, traduzia a ideia de proteção familiar e solidariedade intergeracional que estava no centro do mutualismo. Embora nascida da classe média urbana, desde cedo o Montepio passou a integrar também pequenos funcionários, modestos empregados do comércio e, mais tarde, assalariados e criadas de servir como depositantes da Caixa Económica, revelando uma base social cada vez mais heterogénea.
O crescimento do Montepio fez-se acompanhar da expansão territorial. Em meados do século XIX, criou delegações e agências no Porto e em Coimbra e abriu a sua primeira delegação ultramarina em Goa (1861), à qual se seguiram o Funchal (1865) e outras cidades.
As crises económicas, nomeadamente a de 1890–91, tiveram forte impacto na instituição, com corridas à Caixa Económica e perdas nos depósitos, obrigando à adoção de práticas de gestão mais cautelosas. Ainda assim, o Montepio reforçou a sua credibilidade, tornando-se um dos principais estabelecimentos de referência nacional.
Em 1896, dispunha de 42 agências e delegações espalhadas pelo território nacional e insular, tornando-se a associação mutualista mais abrangente do país. Na viragem do século XX, surgiriam propostas para abrir sucursais em bairros de Lisboa, refletindo o crescimento urbano da capital.
O final da Monarquia e a Primeira República trouxeram novos desafios, marcados pela instabilidade política, a inflação persistente e dificuldades em assegurar pensões ajustadas ao custo de vida. Ao mesmo tempo, cresceu o debate interno sobre a necessidade de equilibrar a vertente financeira com o reforço dos benefícios mutualistas.
A reforma dos Estatutos de 1922 representou um marco decisivo: foram criadas pensões de reforma e invalidez, subsídios de funeral e novas modalidades de pensões vitalícias, ampliando significativamente o alcance da ação mutualista. Estas medidas responderam às necessidades de proteção social de uma sociedade em rápida transformação e ao impacto da I Guerra Mundial, que agravara a vulnerabilidade dos associados e das suas famílias. Ao diversificar os produtos mutualistas, o Montepio estendeu também a sua ação a grupos menos favorecidos, para quem o subsídio de funeral ou pequenas pensões vitalícias eram apoios essenciais.
Durante a década de 1920, novas reformas estatutárias (1928) e o recurso à matemática atuarial modernizaram a instituição, reforçando a sua sustentabilidade financeira. A Caixa Económica diversificou aplicações e atraiu novos perfis de depositantes, incluindo pequenos aforradores, sinal de uma base social em expansão.
A reforma estatutária de 1933 adaptou a instituição ao novo quadro da ordem corporativa imposto pelo Estado Novo, diversificando as prestações mutualistas e ajustando-se ao reforço do papel social do Estado que, de alguma forma, se tornou concorrente. Entretanto, o Montepio aprofundou a profissionalização da sua gestão, criando serviços técnicos especializados e um modelo organizativo mais moderno. Paralelamente, lançou iniciativas de apoio à habitação, como a construção de moradias na Estrada de Benfica e a compra de prédios urbanos para arrendamento em Lisboa, procurando responder à falta de habitação condigna.
O Montepio Geral celebrou o seu primeiro centenário em plena II Guerra Mundial, consagrando-se como a maior e mais sólida instituição mutualista portuguesa, conjugando tradição de socorro mútuo, um papel financeiro relevante e uma ação social cada vez mais diversificada. A guerra marcaria um ponto de viragem a todos os títulos, à escala nacional e internacional, não apenas para o Montepio, para o mutualismo e as políticas sociais em geral.
