O Montepio surgiu com o propósito de responder às necessidades dos funcionários do Estado e afirmou-se como uma mutualidade que rapidamente atraiu o conjunto da classe média urbana em ascensão na cidade de Lisboa. Funcionários públicos, militares, profissionais liberais, comerciantes e pequenos empresários procuravam segurança financeira face às incertezas da industrialização e da urbanização.
Nos primeiros anos, a adesão foi marcadamente masculina, com sócios vindos da administração pública e do comércio. Muitos trabalhavam na Baixa — no Arsenal da Marinha, nas repartições do Estado ou em pequenos negócios — com fácil acesso à sede do Montepio.
Ao longo do século XIX, esta base consolidou-se. Em 1876, mais de metade dos associados estava ligada diretamente ao Estado: militares do Exército (28%) e funcionários dos ministérios, tribunais e escolas públicas (cerca de 60%). Seguiam-se comerciantes, médicos, advogados e engenheiros, bem como um número crescente de empregados de bancos, correios e caminhos de ferro, refletindo o fortalecimento do setor terciário em Lisboa. Embora o peso dos trabalhadores industriais fosse menor, já no final do século XIX operários e assalariados urbanos começaram a procurar o Montepio, atraídos pela possibilidade de assegurar pensões e crédito. A base social da instituição refletia, assim, a presença crescente de uma burguesia de trabalho, que via no Montepio um instrumento de proteção e ascensão social.
Os Beneficiários
No centro dessa proteção estavam os beneficiários das pensões — viúvas, órfãos, filhas solteiras e filhos sem recursos ou com inabilidades físicas ou mentais — para quem a instituição era muitas vezes o único amparo. A mulher, figura central na atribuição de pensões, dependia economicamente do marido e ficava, em caso de viuvez, numa situação de grande vulnerabilidade. O Montepio respondia com pensões de sobrevivência e dotes, refletindo práticas sociais da burguesia que valorizava o casamento como meio de estabilidade.
A amplitude social tornava-se mais evidente: das viúvas de funcionários públicos a pensionistas em situações de grande precariedade, para muitas famílias o Montepio constituía o último recurso contra a pobreza.
A partir da década de 1930, as próprias pensionistas começaram a intervir publicamente, apresentando abaixo-assinados para reclamar o aumento das pensões, um sinal do início da afirmação da voz feminina no interior da instituição.
Descarga de carvão no Cais do Sodré em 1907. Joshua Benoliel (1873-1932). © Arquivo Municipal de Lisboa. JBN000176
Costureiras na Rua Garrett. Joshua Benoliel (1873-1932). © Arquivo Municipal de Lisboa, JBN000150.
As depositantes
A Caixa Económica revelou outra dimensão da ligação das mulheres ao Montepio. Em 1926, o maior grupo de depositantes era constituído por empregadas domésticas e serviçais (cerca de 40%). Este dado mostra como a instituição ultrapassava as fronteiras da classe média, chegando também às camadas populares, especialmente femininas. As caixas económicas funcionavam como verdadeiros “mealheiros dos pobres”, promovendo a pedagogia da poupança e permitindo a muitas trabalhadoras gerir autonomamente os seus rendimentos.